Com a abertura do Maio Amarelo, o Distrito Federal intensifica, a partir desta semana, uma série de ações de fiscalização e conscientização para conter comportamentos de risco no trânsito. Embora os indicadores apontem melhora, dados do Departamento de Trânsito (Detran-DF) expõem a vulnerabilidade de pedestres, ciclistas e motociclistas. Em 2025, 77 pedestres morreram no DF (queda de 6% em relação ao ano anterior e o menor índice desde 2021). Entre ciclistas, a redução foi de 32% em três anos, passando de 25 mortes em 2022 para 17 no ano passado.Lançada oficialmente na quinta-feira, a mobilização prevê uma ofensiva nas vias: serão 120 operações de blitz, 300 patrulhamentos para coibir infrações como uso de celular ao volante e excesso de velocidade, além de 300 pontos de demonstração voltados ao respeito à faixa de pedestres. Ao todo, 520 agentes de trânsito estarão mobilizados ao longo do mês. Sob o lema nacional “Desacelere. Seu bem maior é a vida” e com o tema “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”, a campanha aposta na combinação entre fiscalização e educação para pressionar por uma mudança de comportamento, em um cenário em que a pressa ainda custa vidas.
Para o especialista em trânsito Wellington Matos, a redução da velocidade é fundamental, já que o excesso amplia os riscos em diferentes níveis. “Muitas vezes, a pessoa acelera para ganhar poucos minutos. No entanto, do ponto de vista técnico, quanto maior a velocidade, maior a energia envolvida e, consequentemente, maior o risco de morte, tanto em colisões quanto em atropelamentos”, explica.
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(foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
Segundo ele, há uma falsa sensação de segurança em velocidades consideradas comuns — como 60 km/h em áreas urbanas ou 110 km/h em rodovias. “O que muitos não percebem é que o veículo já possui uma massa elevada, geralmente superior a uma tonelada. Em movimento, entra em jogo a energia cinética, que cresce rapidamente com o aumento da velocidade”, completa.
O professor de Engenharia de Tráfego da Universidade de Brasília Paulo Cesar Marques ressalta que a moderação da velocidade é decisiva para a segurança viária e para a proteção de vidas, especialmente de pedestres. Segundo ele, o condutor reage aos estímulos do ambiente, mas essa reação não é imediata — há sempre um intervalo entre perceber o risco e agir.
“Se uma pessoa entra repentinamente na pista à frente de um veículo em movimento, o motorista precisa de um tempo para identificar a situação, decidir frear e, de fato, acionar o freio. Em condições normais, esse processo pode levar cerca de dois segundos. Nesse intervalo, o veículo continua se deslocando na velocidade em que estava”, explica.
Nesse tipo de situação, velocidades mais baixas podem permitir que o veículo pare a tempo de evitar o atropelamento. Mesmo quando a colisão é inevitável, o impacto tende a ser significativamente menos severo.
Wellington Matos ressalta ainda que respeitar os limites de velocidade é um passo importante, mas não suficiente, para eliminar os riscos. “Se todas as pessoas passassem a respeitar os limites, isso ajudaria muito, mas não resolveria todos os problemas. A velocidade é apenas uma parte do contexto”, afirma. Entre outros fatores determinantes, ele destaca a importância da distância segura entre veículos, da atenção constante ao ambiente, da leitura adequada da via e da presença de pedestres, ciclistas, animais e outros condutores.
O professor Paulo Cesar Marques reforça que o respeito aos limites contribui significativamente para a segurança viária, mas chama atenção para outro desafio: a própria definição dessas velocidades. “Fazer com que os motoristas respeitem os limites é essencial, mas também é necessário revisar e reduzir essas velocidades, especialmente em vias urbanas com tráfego local, onde a convivência com usuários mais vulneráveis é maior”, avalia.
A campanha, que mobiliza órgãos como o Detran-DF e o DER-DF
(foto: Divulgação/Detran-DF)
Já o professor de Psicologia Ambiental Hartmut Günther explica que exceder o limite de velocidade não está, necessariamente, ligado a uma necessidade real. O comportamento, segundo ele, costuma ser influenciado por fatores como sensação de poder — sobretudo ao dirigir veículos mais potentes —, percepção de impunidade e falta de reflexão sobre os riscos.
“Muitos condutores acreditam que têm controle total da situação e acabam superestimando suas habilidades. Esse comportamento se agrava sob efeito de álcool ou outras drogas, aumentando significativamente a exposição ao risco”, afirma.
Para o especialista, investir em educação para o trânsito é essencial, mas a forma como as punições são aplicadas também faz diferença. “Consequências mais imediatas tendem a ser mais eficazes. Multas que chegam semanas depois da infração têm pouco impacto educativo. Medidas mais rápidas e perceptíveis contribuem mais para a mudança de comportamento”, conclui.
Dados recentes reforçam a dimensão do problema. Entre janeiro e março de 2026, foram registradas 427.345 infrações por excesso de velocidade. No mesmo período de 2025, o número chegou a 503.892 ocorrências. Considerando todo o ano de 2025, o total foi de 1.994.509 infrações.
Embora haja uma leve redução na comparação entre os primeiros meses de 2025 e 2026, os números ainda são expressivos e evidenciam o desafio contínuo das autoridades de trânsito. Mais do que intensificar a fiscalização, é necessário ampliar a conscientização sobre os riscos do excesso de velocidade e seus impactos diretos na preservação de vidas.
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Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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Foto: Ed Alves CB/DA Press
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Foto: Divulgação/Detran-DF
Maria Eduarda Lavocat RepórterFormada em Jornalismo pela Universidade de Brasília, estagiou em 2024 na editoria “Eu, Estudante” do Correio Braziliense e, desde setembro do mesmo ano, atua como repórter na editoria de Cidades e no caderno de Direito e Justiça.
