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Delações de banqueiro do Master e investigados em fraudes do INSS e combustíveis expõem esquema de propinas e influência política. Envolvem ministros do STF, políticos e servidores, deixando Brasília em alerta máximo e gerando debate sobre regras das colaborações premiadas.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Em um determinado dia, no segundo semestre de 2024, um restrito grupo de autoridades foi convidado para comemorar o aniversário de um ex-ministro de governo. Compareceram, entre outros, as principais lideranças do Congresso, alguns integrantes do primeiro escalão da República, um ministro do Supremo Tribunal Federal e Daniel Vorcaro, o hoje notório dono do Banco Master, o último a chegar, quando a noite começava a avançar em direção à madrugada. Foi uma cena inesquecível para alguns. O banqueiro apareceu acompanhado de uma van de vidros escuros, transportando pelo menos duas dezenas de mulheres bem-vestidas e sorridentes, que desembarcaram e foram levadas para o interior de uma luxuosa casa, localizada no bairro mais chique de Brasília. “Eram brasileiras e gringas, lindas, elegantes, pareciam modelos”, lembra um dos presentes, que, por razões mais do que compreensíveis, pediu para não ter o nome revelado. As convidadas viajaram à capital em jatos executivos que partiram de São Paulo horas antes do evento e retornaram na manhã seguinte — um presente do banqueiro ao amigo aniversariante e aos demais convivas. A festa, animada, varou a madrugada.
Dependendo do contexto em que essa história aparentemente irrelevante for contada, ela pode se resumir a um tremendo constrangimento às autoridades presentes na festa ou expor o método utilizado pelo banqueiro para capturar influência e recompensar os favores que lhe permitiram construir o império financeiro que ruiu no fim do ano passado, deixando um rombo no mercado superior a 50 bilhões de reais. Preso, Vorcaro, como se sabe, negocia um acordo de delação premiada. Em troca de benefícios judiciais, propõe-se a divulgar detalhes desconhecidos da ascensão e queda do Master. As investigações da Polícia Federal já mostraram que, durante anos, a instituição operou uma intrincada engrenagem de fraudes, impulsionada por negócios que envolviam poder e influência política. Há suspeitas de pagamento de propina a deputados, senadores, governadores, funcionários públicos de vários escalões, magistrados e autoridades do governo. Alguns desses personagens estavam na festa de aniversário. É por essas e outras coincidências que a notícia sobre a delação do banqueiro tem deixado Brasília em estado de alerta.
CLIMA DE TENSÃO - Autoridades: confissões de criminosos podem atingir personagens dos Três Poderes da República (CanalGov/Reprodução)O que o dono do Master pretende revelar é mantido sob absoluto segredo, mas ninguém tem dúvida do potencial devastador das informações que ele guarda. O banqueiro, como se viu, não era de impor restrições a certas despesas. Não se importava com o valor de presentes e muito menos em desembolsar milhões para manter autoridades influentes em sua órbita e acioná-las quando precisasse. Vorcaro considerava esses gastos como investimento. Em um único ano, o banco reservou 500 milhões de reais apenas para despesas da área jurídica. A suspeita é de que uma parte desse dinheiro tenha sido usada para facilitar determinados negócios. Uma das operações mais controversas do Master foi a tentativa de venda da instituição, já quebrada, ao Banco de Brasília (BRB). A transação, que não se concretizou, resultou em prejuízo superior a 8 bilhões de reais à instituição da capital federal. As investigações evidenciaram que pelo menos um dos personagens presentes na badalada festa de aniversário do ex-ministro se beneficiou indiretamente da operação. Isso, a princípio, não configura necessariamente um crime, dependendo das conexões que o banqueiro vier a fazer em sua delação.
A Polícia Federal não tem dúvidas de que o caso BRB vai muito além de uma operação financeira tecnicamente desastrada. Teria sido uma ação influenciada por interesses políticos e impulsionada por propina para tentar salvar o Master de uma liquidação. Se isso de fato ocorreu, Vorcaro precisará contar quem planejou, coordenou e recebeu os pagamentos. No curso das investigações, uma operação da PF ocorrida na manhã de quinta, 16, prendeu o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, por ordem do ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF.
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CASO MASTER - Vieira: o senador pediu o indiciamento de três ministros do Supremo por crime de responsabilidade (Saulo Cruz/Agência Senado)O banco gastava uma verdadeira fortuna com assessorias e consultorias que facilitavam de alguma forma o acesso ao poder. Entre os prestadores de serviço contratados estavam Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda do governo Lula (14 milhões de reais), o escritório do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski (6,1 milhões), o ex-presidente da República Michel Temer (10 milhões) e o escritório de Viviane Barci, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes (129 milhões). Além de contratos generosos, Vorcaro também disponibilizava aos mais próximos mordomias, como jatos executivos, e bancava festas e passeios no exterior. Alguns acontecimentos recentes mostram o nível de tensão provocado pelo escândalo nas mais altas esferas do poder.
Pensada originalmente para investigar facções criminosas, a CPI do Crime Organizado encerrou os trabalhos na terça 14, depois de propor o indiciamento dos ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli por crime de responsabilidade. Moraes, segundo os parlamentares, teria viajado em jatos do banqueiro e se beneficiado indiretamente do contrato de sua esposa com o banco. “Tem-se a configuração de um circuito fechado em que o investigado financia, simultaneamente, a remuneração do cônjuge e o transporte pessoal do magistrado — situação que compromete de forma irremediável a aparência de imparcialidade”, diz o relatório final da comissão. Já Toffoli, além de possuir negócios pessoais com o banqueiro, teria atuado para dificultar as investigações. A CPI pediu ainda o indiciamento do ministro Gilmar Mendes e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, sob a alegação de que também teriam atuado para impedir as investigações. “O procurador-geral da República não adotou nenhuma providência concreta no sentido de promover a investigação e a eventual responsabilização das autoridades envolvidas”, escreveu o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da comissão.
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REAÇÃO - Moraes, Toffoli e Mendes: respostas duras do STF ao relatório da CPI (Gustavo Moreno/STF)A resposta do Supremo ao senador foi duríssima. Os ministros Flávio Dino, Dias Toffoli e o decano Gilmar Mendes acusaram Vieira de abuso de autoridade e de atacar o Judiciário como plataforma eleitoral. O senador é candidato à reeleição em outubro. “O relatório revela verdadeira cortina de fumaça, ao deixar de enfrentar o grave problema a que se propôs e ao dedicar-se a engrossar a espuma midiática contra o STF, na expectativa de produzir dividendos eleitorais para certos atores políticos”, afirmou Mendes. “A Justiça Eleitoral não faltará em punir aqueles que abusam do seu poder para obter votos em proselitismo eleitoral”, advertiu Toffoli. O presidente da Corte, Edson Fachin, também saiu em defesa dos colegas.
Uma articulação entre parlamentares da base governista e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), resultou na rejeição do relatório. No dia seguinte, Mendes pediu a abertura de investigação contra Vieira por suposto crime de abuso de autoridade. De acordo com o decano do STF, o relator da CPI agiu “ardilosamente” ao propor o indiciamento de três integrantes do tribunal, incluindo ele, por crimes de responsabilidade, ilícito que serve de estopim para processos de impeachment contra juízes do STF.
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CASO INSS - Mendonça: colaboração envolve ex-ministros do governo (Luiz Silveira/STF)A tensão deve aumentar ainda mais com as revelações que o ex-banqueiro Vorcaro promete fazer à Justiça. Até 2013, a legislação brasileira não contava com o instituto da delação premiada regulamentada. As grandes denúncias, especialmente na seara política, dependiam basicamente do trabalho da polícia, do Congresso, da imprensa ou de uma confissão isolada. Hoje, criminosos usam os segredos que guardam como moeda de troca para viabilizar acordos que possam render-lhes algum benefício judicial. No início do mês, Alexandre de Moraes deu andamento a um processo movido pelo PT que pediu que o STF estabeleça regras mais claras para futuros acordos. A ação — apresentada na esteira da Operação Lava-Jato, que levou para a cadeia toda a cúpula do partido, incluindo o então ex-presidente Lula — pode criar dificuldades para Daniel Vorcaro chegar a um acordo. Entre os temas que a Corte vai avaliar a pedido dos petistas estão se dois colaboradores podem fazer acordos que incriminam um mesmo suspeito, se eles têm direito de apresentar informações sigilosas sobre terceiros, se podem blindar parentes ao aceitar colaborar com a Justiça e se benefícios muito vantajosos para o delator, como o perdão judicial, podem ser negociados no momento de celebração do acordo. Moraes está com o processo há quase cinco anos. A Procuradoria-Geral da República pediu que o caso fosse arquivado sem discussão de mérito. O ministro ignorou o parecer e solicitou ao presidente do STF, Edson Fachin, que paute o tema em Plenário, o que ainda não tem data para acontecer.
Há outras delações importantes em andamento. Na segunda 13, o governo demitiu o presidente do INSS, Gilberto Waller. Foi a última baixa no órgão que, há um ano, é investigado como berço de uma fraude cruel contra os aposentados. Com o apoio de servidores públicos, um grupo de golpistas forjou autorizações de descontos nas pensões dos idosos e lhes tomou mais de 4 bilhões de reais. Uma CPMI investigou o caso durante seis meses, mas não avançou muito sobre o que a Polícia Federal já havia descoberto. Um dos líderes da quadrilha, o empresário Maurício Camisotti entregou ao ministro André Mendonça, relator da investigação no STF, uma proposta de acordo de delação. A coluna Radar, publicada na última edição de VEJA, revelou que o empresário se comprometeu a listar os políticos que receberam propina para manter o esquema em funcionamento. A parte mais delicada da delação, no entanto, estaria no capítulo sobre o papel da lobista Roberta Luchsinger. Ela trabalhou com Antônio Carlos Camilo, o chamado Careca do INSS, que está preso e é apontado como o personagem principal da trama — e também estuda a possibilidade de um acordo de colaboração.
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MISTÉRIO - Lulinha com as amigas Roberta Luchsinger e Priscilla Bittar: ligações perigosas com investigados (./Arquivo pessoal)Uma testemunha que prestou depoimento à Polícia Federal afirmou que o filho mais velho do presidente Lula recebia uma mesada para abrir as portas do governo aos golpistas. Os pagamentos seriam feitos através da lobista. A defesa de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, nega as acusações. Camisotti também teria informações esclarecedoras sobre ministros do governo Lula que conheciam as fraudes contra os aposentados e nada fizeram. O empresário também pode esclarecer dois mistérios que a CPMI do INSS não conseguiu decifrar. O sindicalista José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão mais velho do presidente Lula, era dirigente de uma das entidades envolvidas nas fraudes. Não se sabe qual foi o papel dele — se é que houve algum — no golpe contra os idosos. O outro mistério envolve o presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre. Nos extratos bancários de uma das empresas envolvidas no esquema consta um pagamento de 3 milhões de reais para o advogado Paulo Boudens, ex-assessor e braço direito do senador. O parlamentar e o advogado nunca se pronunciaram sobre o assunto.
Na safra de delações em negociação também estão as dos empresários Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, acusados de comandar um esquema bilionário de sonegação de impostos no setor de combustíveis e de lavagem de dinheiro de facções, como o Primeiro Comando da Capital (PCC). Foragidos desde o ano passado e alvos da Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração de organizações criminosas em fundos de investimento, os dois ofereceram informações que comprometeriam políticos de renome nacional, servidores públicos de São Paulo e juízes. As negociações, no entanto, estão travadas. O problema: em processos de colaboração, acusações precisam ser acompanhadas de provas substanciais. Não há dúvidas de que Daniel Vorcaro, os envolvidos na máfia do INSS e mesmo o tal de Beto Louco tenham muito a contar. Em Brasília, porém, delações “explosivas” ainda esbarram nos fantasmas da Operação Lava-Jato, quando uma sequência de revelações premiadas mal conduzidas acabou garantindo a impunidade de criminosos confessos. Não repetir esses erros do passado é fundamental para que os responsáveis pelos escândalos recentes paguem o preço disso na Justiça.
Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991
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