Por:
Ricardo Brito e Lisandra Paraguassu
9 abr
2026
– 20h20
Compartilhar
O banqueiro Daniel Vorcaro, preso no mês passado por alegações de fraude, pagou milhões de reais a figuras poderosas de todo o espectro político, segundo registros fiscais analisados pela Reuters, durante um período em que seu banco estava tentando evitar a liquidação.
Os pagamentos aumentam as chances de que um escândalo em torno do liquidado Banco Master possa ter um impacto nas eleições gerais de outubro, quando os brasileiros escolherão um novo presidente, governadores, deputados e senadores.
No centro dos holofotes está Vorcaro, dono do Banco Master, que conduziu uma rápida expansão que surpreendeu alguns analistas. Sua suposta influência sobre integrantes do Banco Central é agora objeto de uma investigação criminal. Em documentos fiscais obtidos por uma investigação do Congresso e revisados pela Reuters, o Banco Master relatou ter feito pagamentos elevados ao ex-presidente Michel Temer, um ex-assessor sênior do ex-presidente Jair Bolsonaro e um ex-ministro da Fazenda que apresentou Vorcaro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os documentos também confirmaram relatos da imprensa de que o banco fez pagamentos a um escritório de advocacia administrado pela esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Questionados sobre o assunto, todos os beneficiários disseram que os pagamentos foram feitos legalmente por serviços prestados. A Reuters não conseguiu verificar de forma independente suas contas e não há evidências de que os pagamentos estejam vinculados a decisões regulatórias. Os pagamentos identificados pela Reuters foram feitos em 2025, depois que o Banco Central sinalizou a má administração do banco, que foi liquidado em novembro. Como Vorcaro está agora negociando um possível acordo de delação premiada com a Polícia Federal, de acordo com duas fontes próximas à investigação, a extensa rede de pagamentos aumenta a preocupação com revelações mais graves nos próximos meses. Leonardo Barreto, analista da consultoria Think Policy, disse que o escândalo ultrapassou as linhas partidárias em Brasília, o que pode “diluir esse sentimento de culpa”. Ainda assim, ele acrescentou que o impacto pode ser pior para os candidatos em exercício, como Lula, porque “os eleitores não fazem essa distinção e são guiados pelo ambiente geral”. REPUTAÇÕES EM RISCO Os documentos mostram que o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, recebeu R$40 milhões do Banco Master em 2025. A empresa disse em um comunicado que as informações foram “vazadas ilegalmente” e que os valores relatados nos documentos vazados estavam errados, sem oferecer mais detalhes. Na quarta-feira, quando os detalhes dos documentos fiscais começaram a aparecer na imprensa, Lula sugeriu em uma entrevista que estava preocupado com os danos à reputação de Moraes. Lula disse que falou ao ministro do Supremo que ele havia construído um “legado histórico neste país”, mas acrescentou um conselho: “Não permita que o caso Vorcaro jogue fora seu legado.” Lula não está sob investigação e tem procurado se dissociar do caso. O ex-ministro da Fazenda de Lula Guido Mantega também apareceu nos registros, com sua empresa de consultoria recebendo R$8 milhões do banco. Mantega, que organizou o encontro de Vorcaro com Lula no ano passado, disse em um comunicado que “quando assinei o contrato de consultoria, não havia indícios de irregularidades”. Temer, o ex-presidente que rompeu com o partido de Lula, confirmou que seu escritório de advocacia ganhou R$7,5 milhões por serviços de mediação jurídica prestados ao Banco Master. Temer ressaltou que essas contratações ocorreram depois que ele deixou o cargo, em 2018. Fabio Wajngarten, ex-chefe de comunicação do ex-presidente Jair Bolsonaro, recebeu R$3,8 milhões do Banco Master em 2025. Wajngarten afirmou ter trabalhado na equipe de defesa jurídica de Vorcaro sob um contrato com cláusulas de confidencialidade.
