Wilde Cardoso Gontijo Júnior — especialista em recursos hídricos da Agência Nacional de Águas (ANA)
Ainda há quem não sabe, mas não custa reforçar: o principal manancial de água para abastecer a população de Brasília, totalmente distrital, é o Lago Paranoá.
Esse fato se concretizou ainda em 2009, ano em que a Agência Nacional de Águas (ANA) autorizou a Caesb a captar até 2.800 litros por segundo no lago. Os estudos realizados pela ANA mostraram, naquele momento, que essa retirada era sustentável, conseguindo manter ainda outras necessidades, incluída a produção de energia elétrica pela usina instalada na barragem. Sua localização deveria ficar na parte final e mais profunda do lago.
Porém, foi somente em 2017, dentro da maior crise hídrica que o DF já vivenciou, que a Caesb instalou uma captação de 700 litros por segundo, 25% do autorizado. Ela foi localizada no braço do lago abastecido pelo ribeirão do Torto, entre a Península Norte e o Setor de Mansões do Lago Norte. Seu sucesso foi grande, e ela continua atendendo hoje o Plano Piloto, Cruzeiro, Sudoeste, Octogonal, Lago Norte, Taquari, Paranoá e Itapoã, juntamente com a estação de tratamento de água mais antiga, próxima ao Palácio do Buriti.
A outorga de direito de uso emitida pela ANA tem vigência até 2032, quando deverá ser reavaliada quanto à real capacidade do manancial de continuar atendendo à autorização de 2009. Nesse contexto, qualquer intervenção que venha reduzir a “produção de água” na bacia do Lago Paranoá é muito preocupante.
Mas quais fatores podem afetar essa “produção”? São praticamente três: em primeiro lugar, a impermeabilização do solo reduz a alimentação dos aquíferos subterrâneos. Ou seja, com ou sem nascentes visíveis acima da cota do lago, haverá redução de água afluindo para o subsolo e consequente diminuição da capacidade hídrica para novas retiradas no período da estiagem.
O segundo é quanto ao regime de afluência dessas águas: a alteração do terreno natural impacta diretamente a maneira com que as águas chegam ao lago. Com mais impermeabilização, maior vazão aflui rapidamente ao lago, deixando de infiltrar no solo, o que provoca a necessidade de abertura das comportas da barragem em períodos chuvosos, “perdendo-se” parte da água que ficaria ali armazenada. Ou seja, o que se poderia armazenar no período das chuvas para se usar na estiagem não se recupera mais. Isso fica mais severo com os efeitos já observados das mudanças do clima, onde chuvas mais intensas estão presentes em período cada vez menor durante o ano, tornando as perdas mais intensas e prováveis.
O terceiro ponto é quanto ao assoreamento, ou redução do volume de água possível de ser armazenada no lago. Esse efeito já provocou a quase desativação do primeiro reservatório construído em Brasília, no mesmo ribeirão do Torto, e pode afetar sobremaneira o volume do lago, notadamente no local da captação atual da Caesb. Isso ocorrerá certamente, tanto pelos sedimentos oriundos de obras civis durante as construções, quanto por aqueles que advirão da lavagem das superfícies após a ocupação urbana das encostas, como pode ser o caso do loteamento proposto para a Serrinha do Paranoá.
A situação agrava-se quando, além da intensificação das ocupações imobiliárias dentro da bacia hidrográfica do Lago Paranoá, há previsões no planejamento do DF para que áreas do Tororó venham a abrigar centenas de milhares de habitantes. Para essas áreas, o manancial mais capaz e provável será o próprio (e ameaçado) Lago Paranoá.
Há, assim, um evidente paradoxo, para não dizer imprudência ou irresponsabilidade na pretensa ocupação da Serrinha. Por um lado, ameaça-se o maior manancial puramente distrital de grande parte da população de Brasília, por outro induz-se ao aumento da demanda por água que terá nesse manancial sua fonte mais confiável.
A perspectiva clara será, a curto prazo, que a ANA ou a Adasa, atual delegatária das atribuições de outorgar os recursos hídricos no DF, reveja a outorga atualmente em vigor, certamente reduzindo a vazão já autorizada e aumentando a vulnerabilidade do abastecimento de toda a cidade. Para comemorar o dia mundial da água em 2026, não podíamos ter cenário mais ameaçador!
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