Está marcado para amanhã em Brasília um protesto pela proteção da região conhecida como Serrinha do Paranoá. Manifestações em defesa do meio ambiente são raras na cidade, mas a área não é um espaço qualquer. Com 12 mil hectares, abriga dez núcleos rurais produtores de hortaliças e faz parte de um trecho preservado do Cerrado onde há mais de cem nascentes, numa região castigada pela escassez de água. A reação da população se deve à decisão do governo de Ibaneis Rocha (MDB), sancionada pela Câmara Legislativa, de incluir um trecho da Serrinha como uma das garantias na obtenção de um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos para capitalizar o BRB, banco estatal de Brasília fustigado por negócios nebulosos com o Banco Master. Risco: Deputado aciona MP contra uso de área ambiental para capitalizar o BRB Os 716 hectares da Serrinha incluídos nas garantias representam aproximadamente metade do espaço ocupado pelas superquadras residenciais no Plano Piloto. Se o governo não pagar o empréstimo e os credores executarem as garantias, a área preservada estará sujeita a pressão por urbanização. É verdade que qualquer expansão urbana dependeria de licença ambiental. Mas isso não é empecilho incontornável. Tanto que seu valor foi estimado em R$ 2,3 bilhões. Não valeria tanto se não houvesse perspectiva de uso. Caso a operação se torne realidade, a liquidação do banco de Daniel Vorcaro terá, como consequência nefasta, a ameaça a uma região que contribui para recarga dos aquíferos do Distrito Federal, além de manter o próprio Lago Paranoá. Não é exagero afirmar que o governo de Brasília contratará o risco de um desastre ambiental. Banco de Brasília: Governo do DF oferece centro administrativo sem uso há 12 anos como garantia para capitalizar o BRB Soterrar nascentes, como pode acontecer se a área for ocupada, equivale a pôr em risco o abastecimento de água. De acordo com a Secretaria de Agricultura do DF, uma em cada cinco nascentes da região já precisa ser recuperada, devido a desmatamento, erosão e despejo de lixo. Qualquer prejuízo às nascentes da Serrinha seria irreparável. O caso se torna ainda mais grave com as mudanças climáticas. A melhor alternativa teria sido o governo não incluir nessa engenharia financeira a Serra do Paranoá. O melhor teria sido o governo não ter incentivado a transferência de R$ 12,2 bilhões do BRB ao Master, em troca de títulos fajutos ou sem valor de mercado, por motivos que as investigações em curso têm o dever de esclarecer.
