Um ano após o anúncio da tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), a expectativa de uma delação premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro deixa em suspense o mundo político, impacta as sessões do Congresso, expõe o Supremo Tribunal Federal (STF) a uma grave crise e tem potencial para contaminar a eleição presidencial. O caso desencadeou o maior escândalo político e financeiro da República, atingindo políticos influentes, autoridades dos três Poderes e altos funcionários do Banco Central (BC). A investigação deflagrada pela Polícia Federal (PF) revelou a existência de uma “organização criminosa” liderada por Vorcaro, nas palavras do ministro André Mendonça, atual relator do caso no STF. Preso desde 4 de março, o ex-banqueiro é investigado pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, obstrução da Justiça e contra o sistema financeiro. Ele mudou de advogado recentemente para articular uma colaboração premiada. Fabiano Zettel, pastor, empresário e cunhado de Vorcaro, também está detido e demonstrou disposição de delatar. A quebra do sigilo dos celulares de Vorcaro, analisados pela PF e pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), revelou diálogos mantidos com sua ex-noiva Martha Graeff, nos quais ele menciona contatos com políticos e autoridades. Em uma das mensagens, o ex-banqueiro diz que esteve em uma reunião na residência oficial do Senado em 3 de agosto de 2025. Sem citar nominalmente o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), relata que o encontro “foi até meia-noite” e que “terça teremos outra [reunião]”. Um dia antes, ele disse à então namorada que havia se encontrado no aeroporto com “Hugo” — uma possível referência ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). “Como presidente da Câmara, eu sempre mantive agenda aberta para ouvir diferentes pessoas, grupos empresariais de diversas atividades econômicas, pois essa é uma das funções do cargo”, disse Motta por meio de nota, acrescentando que seu dever é trabalhar na Casa pela aprovação de propostas de interesse do país. “Sem dúvida estamos em um momento que exige responsabilidade e atenção de todas as instituições, e eu confio plenamente na condução das investigações pelas diferentes instâncias —Supremo Tribunal Federal, Polícia Federal, Ministério Público —, que estão trabalhando com autonomia e diligência.” Em outro diálogo, surge o nome do presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), citado por Vorcaro como “um dos meus grandes amigos de vida”. Nogueira foi autor da chamada “emenda Master”, que sugeria elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A proposta foi rejeitada, mas Vorcaro celebrou com Martha a apresentação do texto: “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes!”. Procurado, Nogueira disse em nota que “mantém diálogos por mensagens com centenas de pessoas, o que não o torna próximo apenas por, eventualmente, interagir com elas”. Afirmou que está tranquilo quanto às investigações relativas a Vorcaro porque não manteve “qualquer conduta inadequada”. Sobre a emenda, alegou que a cobertura do FGC está congelada no mesmo valor há dez anos, e que precisa ser corrigida para proteger os correntistas. Outra liderança é o presidente do União Brasil, Antonio Rueda. Em um diálogo, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, diz a Vorcaro que falou com o político sobre a transação e que ele queria se encontrar com o então banqueiro. A revista Piauí mostrou que o escritório de Rueda advogou para o Master, o que foi confirmado pelo líder do União. Um e-mail recebido pelo ex-banqueiro também mostrou que um helicóptero contratado por ele transportou Nogueira e Rueda para o autódromo de São Paulo para assistirem ao Grande Prêmio de Fórmula 1. Na esfera do Executivo, veio à tona reunião, fora da agenda oficial, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Vorcaro, da qual participaram outras autoridades, como o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e ministros. Em entrevista ao UOL, Lula disse que recebeu o então banqueiro atendendo a pedido do ex-ministro Guido Mantega. “O que eu disse para ele: ‘Não haverá posição política pró ou contra o Banco Master. O que haverá será uma investigação técnica, feita pelo Banco Central’”, disse Lula. Do círculo próximo do presidente, Vorcaro também contratou serviços de advocacia do escritório do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. Em nota, Lewandowski informou que, após deixar o STF, em abril de 2023, voltou a advogar. “Além de vários outros clientes, prestou serviços de consultoria jurídica ao Banco Master”, confirmou. Ao ser convidado para assumir o ministério, em janeiro de 2024, afastou-se do escritório e suspendeu seu registro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), completou. O Supremo foi igualmente dragado para a crise do Master. Em fevereiro, Dias Toffoli, então relator das investigações sobre o banco, teve que se afastar do caso e, posteriormente, se declarar suspeito. O ministro, junto com familiares, é dono da Maridt, empresa que vendeu parte do resort Tayayá, no Paraná, a um fundo de Zettel, cunhado de Vorcaro. Toffoli tem minimizado o episódio. A princípio, negava que o negócio comprometeria sua isenção. Depois de se afastar da relatoria do Master e se declarar suspeito para votar em processos relacionados ao banco, passou a dizer que não tem nenhuma relação com Vorcaro. Mais recentemente foram revelados episódios envolvendo o ministro Alexandre de Moraes. Em dezembro, a colunista Malu Gaspar, de O Globo, revelou a existência de um contrato de R$ 129 milhões para que o escritório de Viviane Barci, esposa de Moraes, defendesse o Master no período de três anos. Posteriormente, ela publicou reportagens indicando que Moraes teria procurado o presidente do BC para interceder em favor do Master, e revelou que Moraes teria recebido uma mensagem de Vorcaro no dia em que o ex-banqueiro foi preso pela primeira vez. “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear”, perguntou Vorcaro ao ministro pouco antes de ser levado à cadeia. Segundo os investigadores, apenas uma parte do material apreendido foi periciada. Além das possíveis colaborações de Vorcaro e Zettel, esse é outro fato que preocupa autoridades dos três Poderes e sinaliza que as amplas ramificações do esquema ainda estão por ser detalhadas. Todos os citados nesta reportagem foram procurados e parte deles não se pronunciou. — Foto: Victor Moriyama/Bloomberg
