No Dia Mundial da Água, celebrado neste domingo (22), uma roda de conversa realizada no Eixão do Lazer, reuniu especialistas e movimentos sociais para alertar sobre o avanço da degradação do Cerrado. O ato faz parte da campanha Cerrado Coração das Águas e reforçou o diagnóstico de que o bioma não enfrenta apenas uma seca, mas um processo de destruição que compromete a segurança hídrica do país.
Para a professora do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB) Mercedes Bustamante o atual ritmo de devastação equivale a um crime contra o conhecimento acumulado por milhões de anos. “Queimar o Cerrado é queimar uma biblioteca como quando se teve o incêndio da Biblioteca de Alexandria e se queimou boa parte do conhecimento da antiguidade”, comparou a pesquisadora.
Segundo Bustamante, o país está abrindo mão da riqueza construída ao longo da evolução das espécies ao adotar um modelo de ocupação que ignora o valor da biodiversidade. Para ela, essa destruição é resultado de uma lógica histórica que sempre tratou a vegetação como algo sem importância.
Embora a Amazônia concentre grande parte da atenção sobre os recursos hídricos, é o Cerrado que sustenta o abastecimento de água no Brasil. O bioma alimenta oito das 12 regiões hidrográficas do país, incluindo 93% da água da bacia do Rio São Francisco.
Yuri Salmona, fundador do Instituto Cerrados, alerta que a vazão do São Francisco já sofreu uma redução de 50% em função do desmatamento no Cerrado. “Dá para acabar com o Pantanal sem tocar no Pantanal, apenas com o desmatamento nas cabeceiras que está na porção do Cerrado”, explicou.
Segundo ele, o desmatamento nessas áreas de recarga já atingiu 74%. Apesar disso, a devastação do Cerrado ainda recebe menos atenção do que a da Amazônia, mesmo tendo superado, no último ano, os índices de desmatamento do bioma amazônico, com cerca de 11 mil quilômetros quadrados destruídos.
Agronegócio: progresso ou contradição?
Baseado na produção em larga escala de commodities, o modelo é apontado como um dos principais responsáveis pelo desgaste dos recursos hídricos e energéticos. Para Salmona, trata-se de um sistema contraditório, que compromete a própria base de sustentação do agronegócio.
“É um modelo que não tem nada de moderno. A gente está reproduzindo um modelo de ocupação e produção que desenhou o início da tragédia do que a gente chama de Brasil”, analisou.
Ele destaca que, enquanto o agronegócio ocupa a maior parte das terras com produção voltada à exportação, a agricultura familiar, com menos de 30% da área, é responsável por garantir a alimentação da população brasileira.
Serrinha do Paranoá
O exemplo mais próximo dessa lógica predatória é a tentativa de monetizar a Serrinha do Paranoá para cobrir rombos financeiros do Banco de Brasília (BRB). A área, estratégica para a recarga do Lago Paranoá, abriga 119 nascentes que estão em risco de urbanização.
Para Salmona, a urbanização da região representa um erro técnico grave. “Significa furar a caixa de água da casa de vocês. Pouco interessa se a tubulação e a nascente estão inteiras, porque a água vai vazar pela caixa d’água”, comparou.
Mercedes Bustamante reforça que a ocupação dessas áreas compromete todo o sistema hídrico da capital, ao afetar diretamente as zonas de recarga que abastecem as regiões mais baixas.
O limite da resiliência e o dever político
Especialistas alertam que o tempo para reverter o cenário é curto. A recuperação de áreas degradadas no Cerrado pode levar décadas, o que exige ações imediatas de preservação.
Para Bustamante, o enfrentamento ao desmatamento deve ir além da ilegalidade e incluir a proteção integral do bioma, já que o Código Florestal ainda permite a supressão de até 80% da vegetação em propriedades privadas.
Ela também critica a falta de avanço político sobre o tema. “A hora que faltar a água lá no banheiro do Congresso, talvez a gente tenha essa perspectiva”, ironizou.
Para os movimentos sociais, o alerta para preservar o Cerrado não é apenas uma pauta ambiental, mas uma condição para garantir água, produção de alimentos e qualidade de vida.
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