Na quarta-feira de cinzas, quando o país ainda respirava os últimos acordes da festa que reinventa o cotidiano, o encerramento forçado do Bloco Cinzeiro no centro de Brasília expôs, mais uma vez, uma contradição profunda que atravessa nossa cidade. Não se trata apenas do fim abrupto de uma celebração, mas do sintoma de um conflito maior: entre uma cidade que insiste em controlar e uma cidade que insiste em viver.
Há algo novo acontecendo no coração de Brasília. E não é pouca coisa.
Onde antes se lia apenas Setor Comercial, começa-se a enxergar um Setor Cultural e Carnavalesco. Onde o Setor Bancário simbolizava o silêncio após o expediente, hoje se anuncia como território de encontro, experimentação e convivência. No Conic [Setor de Diversões Sul], que por tanto tempo foi tratado como margem, pulsa um dos corações mais autênticos da cidade, território onde a arte nunca pediu licença para existir.
Ali, a cidade se faz Espelunca: abrigo do improviso, do encontro improvável, da liberdade que não cabe em planilhas. Ali, ela é Birosca: pequena no tamanho, gigante na capacidade de reunir mundos. Ela é Ordinário, e justamente por isso extraordinário, porque devolve ao cotidiano sua dimensão mais humana, mais viva, mais compartilhada. O centro, que por décadas foi pensado como espaço de passagem, começa finalmente a se afirmar como espaço de permanência. Como espaço de vida.
Essa transformação não é apenas simbólica. Ela é econômica, social e histórica.
A economia do século 21 não se sustenta apenas sobre o concreto, o aço e o expediente das nove às dezoito. Ela se constrói também sobre a música, a arte, a gastronomia, a convivência, o encontro, a moda. É o que o mundo chama de economia da noite: um ecossistema que inclui cultura, turismo, serviços, inovação e criatividade, capaz de gerar emprego, renda e vitalidade urbana.
Cidades que compreenderam isso, como Barcelona, Medellín, Berlim e Buenos Aires, transformaram seus centros em territórios vibrantes, onde a cultura não é tolerada como exceção, mas reconhecida como motor de desenvolvimento. Nessas cidades, distritos criativos emergiram como novos polos econômicos, capazes de atrair talentos, estimular o empreendedorismo e fortalecer identidades locais.
Brasília reúne todas as condições para ser uma referência mundial nesse campo.
Poucas cidades concentram tamanha diversidade cultural em um mesmo território. Aqui convivem expressões vindas de todos os estados brasileiros, formando uma síntese viva da cultura nacional. Brasília é, por natureza, uma cidade de encontros. Uma cidade de reinvenções. Uma cidade onde o Brasil inteiro se reconhece.
Transformar o centro de Brasília em um distrito criativo não é apenas uma possibilidade. É uma vocação.
Isso significa reconhecer o valor das ocupações culturais, dos blocos de rua, dos bares, das biroscas, dos coletivos artísticos, dos espaços independentes que, dia após dia, insistem em fazer a cidade respirar. Significa compreender que a vitalidade urbana não nasce do silêncio, mas do movimento. Não nasce da proibição, mas da convivência.
Uma cidade viva é uma cidade onde as pessoas podem estar, permanecer, circular e criar.
O que está em disputa não é apenas o direito à festa. É o direito à cidade. O direito de que o centro seja mais do que um espaço vazio após o expediente. O direito de que Brasília seja reconhecida não apenas como capital administrativa, mas como capital criativa e inovadora.
Brasília nasceu como projeto de futuro. Como símbolo de esperança e de vanguarda. Uma cidade inventada para inventar o Brasil. Permitir que seu centro pulse é permitir que essa vocação se cumpra.
É do centro que emergem as linguagens novas, os encontros improváveis, as economias emergentes. É do centro que pode nascer uma Brasília que seja, ao mesmo tempo, patrimônio e invenção. Ordem e liberdade. Planejamento e espontaneidade.
Não há cidade criativa sem liberdade urbana. Não há economia criativa sem território vivo.
Cada bloco que ocupa a rua, cada artista que ocupa o espaço público, cada bar que abre suas portas, cada coletivo que transforma o concreto em experiência está, na prática, construindo uma nova economia e uma nova ideia de cidade.
Uma cidade que não teme o encontro. Uma cidade que não teme a cultura. Uma cidade que não teme a vida.
Deixem o centro pulsar.
Deixem o centro ser ordinário e extraordinário. Deixem o centro ser carnavalesco e cotidiano. Deixem o centro ser território de criação, de convivência e de pertencimento.
Porque é do centro que emergirá nossa verdadeira brasilianidade.
E Brasília não nasceu para ser silêncio.
Nasceu para ser futuro.
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*Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.
