Morei duas vezes em Brasília: em 1973 e 1982. Brasília era uma nuvem de poeira. Um barro avermelhado. Não tinha mão-de-obra funcional. Tinha os primeiros botecos. O Beirute, na SQS 109, por exemplo. Ainda não havia corrupção. Semáforos também não. Tinha muitos mineiros. E muitos gaúchos. Mineiros pela proximidade geográfica de Minas. E a chance de construir carreira na burocracia federal. E os gaúchos? Por causa dos governos militares. E dos presidentes oriundos do Rio Grande do Sul. Emilio Medici e Ernesto Geisel. Que trouxeram levas de funcionários para ocupar cargos em Brasília. No governo Geisel, mais de metade dos ministérios era ocupada por gaúchos.
A propósito, semana passada fui ao Sebo da Torre. Comprei livro de cronistas brasileiros (Elenco, editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1974). Entre eles, Clarice Lispector. Uma de suas crônicas é sobre a capital federal. Intitulada Brasília, 1962. Ela começa dizendo: “Brasília ainda não tem o homem de Brasília”.
Mais adiante, ela escreve: “Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. É uma praia sem mar”. Sei que, depois, Clarice foi morar defronte do mar em Copacabana. Para mim, que morei, grande parte, em Boa Viagem, é grande e árida verdade. Um planalto a perder de vista. Sem mar. Apenas um lago. Artificial. Sei que, depois, Clarice foi morar defronte do mar em Copacabana. E, nas suas insônias, admirava ondas que traziam espuma à praia. Mansamente.
Brasília cresceu. Mais de 1 milhão de habitantes. No seu entorno, apareceram núcleos urbanos. Favelados. O plano-piloto, contemporâneo, esperança do futuro na palavra de André Malraux, foi cercado por cidades-satélite: Taquatinga, Ceilândia, Guará, Planaltina, Gama. Cenário medieval, paradoxal. O burgo principal, moderno, afivelado pelo improviso de explosão demográfica.
A história continuou a ser escrita. Uma cordilheira de eventos consolidou o perfil institucional da capital. A era militar foi arquivada. O tempo civil ressurgiu. A Constituição de 1988 foi aprovada. E, à medida que o tempo passou, criou-se uma cultura. Centrada no poder. Onde há poder existe troca de influência. E o que mais a imaginação humana induzir. Pois bem. A certa altura da crônica (pg. 135), Clarice escreve o seguinte: “Aqui meus crimes não seriam de amor. Vou embora para meus outros crimes. (…). Se há algum crime que a humanidade ainda não cometeu, esse crime novo será aqui inaugurado. E tão pouco secreto, tão bem adequado ao planalto, que ninguém jamais saberá”.
Clarice era escritora notável. Seu talento, imenso, começava na realidade. E terminava na ficção. Ou fazia o inverso. Começava na fantasia e findava na ressonância magnética do cotidiano. Porque, no fundo, o alcance planetário da escrita de Clarice ultrapassava fronteiras. Superava os limites convencionais da classificação literária. E atingia o coração dos seres. Nas grandezas e miudezas do prosaico dia a dia. Dureza de interesses, tessitura de propósitos. Introduzidas pela maciez de expectativas excitadas em tenebrosas transações.
A seguir, Clarice escreveu: “Todo um lado da frieza humana, que eu tenho, mostro em mim aqui em Brasília”. Talvez, neste ponto, seja possível discordar, em parte, da escritora. Porque, ao lado da frieza, Brasília comporta muita emoção, muito impulso. Tanto que, nos anos 70, ocorreram tiros no plenário do Senado Federal.
Clarice era uma pessoa de mente aberta. Escritora sensível. Nunca se dedicou ao ofício de vidente. Mas, pelo texto dessa crônica, vê-se que era capaz de perceber, nas dobras do ar, o arco-íris das coisas. Que poderiam virar, no porvir, tragédia shakespeareana. Talvez comédia, cheia de fina ironia, a la Nelson Rodrigues. Ou mesmo apreender, na ambiguidade dos humores e das estações, intuitos contraditórios do poder.
Ela conclui a crônica dizendo: “A beleza de Brasília são suas estátuas invisíveis”. Invisíveis, o improvável e o devido. Súbito espanto. Pois conceito de tanta beleza, ali construída, surge, como gênero, com duas espécies: a ética e a estética. Beleza do ser e beleza do fazer. Nesse enredo, que é espetáculo tropical, a estética traiu a ética. E Clarice, perceptível sentir de poeta, anteviu as dores do homem e do mundo.
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