A depender da evolução desse quadro, o País pode deixar escapar, no curto e médio prazo, bilhões de dólares em aportes voltados à indústria de tecnologia, justamente em um momento de intensificação da corrida global por infraestrutura digital.
No centro dessa tensão está o Projeto de Lei 278/26 (Redata), iniciativa que busca antecipar os efeitos da reforma tributária para o setor de data centers, por meio da redução de tributos federais (como PIS/Pasep, Cofins, IPI e Imposto de Importação) aplicáveis a equipamentos e operações de alta tecnologia.
Publicidade
Os data centers são a espinha dorsal invisível da transformação tecnológica, sustentando desde redes sociais e plataformas de streaming até sistemas bancários, computação em nuvem e o avanço exponencial da inteligência artificial.
Em outras palavras, são ativos críticos para a competitividade econômica e para a inserção internacional do país. Trata-se de um segmento estruturante da economia digital.
Embora concebido ainda no governo anterior, o Redata ganhou novo impulso no atual contexto global, marcado por uma escalada de investimentos em inteligência artificial e infraestrutura digital.
Nesse cenário, o programa passou a ser incorporado à estratégia do governo como instrumento de política industrial, alinhado à agenda de neoindustrialização e à consolidação da chamada indústria 4.0.
Captura de investimentos, soberania e contrapartidas.
Segundo estimativas apresentadas pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, o Brasil teria potencial para atrair até R$ 1 trilhão em investimentos até 2030, caso consiga capturar parte relevante dessa nova onda global.
Publicidade
Mais do que uma agenda econômica, o tema também dialoga com uma dimensão estratégica: a soberania de dados.
Atualmente, cerca de 60% dos dados utilizados no país são processados no exterior, um indicador que revela não apenas dependência tecnológica, mas também perdas na balança de serviços digitais.
Reverter esse fluxo significa fortalecer a autonomia nacional, reduzir custos operacionais e ampliar a segurança no tratamento de informações sensíveis.
O desenho do Redata procura equilibrar incentivos e contrapartidas. Entre elas, destacam-se: uso de energia limpa ou renovável; destinação de capacidade ao mercado interno; investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação e adoção de padrões rigorosos de eficiência energética e hídrica.
Publicidade
Como sintetizou o presidente da Associação Brasileira de Data Center (ABDC), Renan Lima Alves: “A aprovação do Redata é condição necessária para que o Brasil não seja relegado à periferia da maior revolução tecnológica em curso.”
Um projeto técnico em meio a um impasse político.
A trajetória recente da proposta ilustra com clareza a natureza do problema. Inicialmente encaminhado por medida provisória, o tema perdeu validade em fevereiro, diante da ausência de entendimento com a cúpula do Senado.
Na sequência, o governo reapresentou o conteúdo por meio do PL 278/26, aprovado na Câmara com apoio transversal, reunindo base e oposição, o que reforça o caráter consensual do mérito da proposta.
No Senado, contudo, o projeto encontrou um ponto de inflexão. Mesmo com relatoria informal do senador Eduardo Gomes (PL/TO) e texto pronto para deliberação, não há, até o momento, perspectiva concreta de avanço.
A leitura predominante em Brasília é de que o impasse transcende o conteúdo do projeto. O Redata acabou sendo “sequestrado” e inserido em uma dinâmica mais ampla de negociação entre Executivo e a cúpula do Senado, passando a funcionar, na prática, como elemento de barganha e pressão para uma disputa que vai além do mérito do programa
Perda de uma janela estratégica.
A ausência de sinalização política clara tende a produzir um efeito imediato: o deslocamento de investimentos para outros países com jurisdições mais previsíveis e competitivas do ponto de vista tributário e regulatório.
Publicidade
Em um ambiente global altamente disputado, no qual países estruturam rapidamente regimes fiscais e marcos regulatórios para atrair data centers, o tempo político passa a ter um custo econômico direto.
Se mantido o atual quadro, o Brasil corre o risco de, mais uma vez, chegar atrasado a uma janela estratégica, comprometendo sua capacidade de capturar valor em uma das cadeias mais dinâmicas da economia global contemporânea.
