247 – A paisagem monumental de Brasília, marcada por linhas curvas, concreto e utopia modernista, não pode ser compreendida sem a presença silenciosa e poderosa das esculturas de Alfredo Ceschiatti. Autor de algumas das obras mais emblemáticas da capital federal, o artista mineiro ajudou a traduzir em forma e matéria o espírito do projeto de Oscar Niemeyer. Ainda assim, seu nome permanece, para muitos, à sombra de arquitetos e urbanistas, apesar de sua contribuição decisiva para a construção simbólica do Brasil moderno.Nascido em Belo Horizonte, em 1918, Ceschiatti formou-se na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, onde foi aluno de grandes nomes como Celso Antônio e Rodolfo Bernardelli. Desde cedo, demonstrou interesse pela figura humana, especialmente o corpo feminino, que se tornaria sua principal fonte de inspiração ao longo da carreira. Sua linguagem artística combinava classicismo e modernidade, com formas suaves, volumes equilibrados e uma sensualidade discreta. A escultura como extensão da arquitetura A parceria entre Alfredo Ceschiatti e Oscar Niemeyer foi central para o projeto de Brasília. Mais do que adornos, suas esculturas foram concebidas como parte integrante da arquitetura. Em vez de ocupar espaços residuais, suas obras dialogam diretamente com o concreto branco e as curvas dos edifícios, criando uma harmonia rara entre arte e urbanismo. Essa integração é evidente em diversas obras espalhadas pela cidade, especialmente na Praça dos Três Poderes, no Palácio da Alvorada e no Supremo Tribunal Federal. Ceschiatti não apenas ocupou esses espaços — ele ajudou a defini-los. As obras mais icônicas Entre suas criações mais conhecidas, destaca-se “A Justiça”, posicionada em frente ao Supremo Tribunal Federal. A figura feminina sentada, de olhos vendados, segura uma espada e representa o ideal de imparcialidade. Diferentemente de representações tradicionais, a escultura de Ceschiatti transmite uma serenidade firme, quase contemplativa, reforçando o caráter simbólico do poder judiciário. A Justiça, de Alfredo Ceschiatti(Photo: Rosinei Coutinho / STF)Rosinei Coutinho / STFNo Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente, encontram-se as célebres esculturas conhecidas como “As Iaras”. Instaladas no espelho d’água, as figuras femininas em bronze parecem flutuar, criando um efeito visual de leveza e movimento. A sensualidade elegante das formas tornou-se uma marca registrada do artista. Já no Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, destaca-se a escultura “Eva”, uma figura feminina em mármore que sintetiza o domínio técnico e a delicadeza estética de Ceschiatti. A obra dialoga com os jardins de Burle Marx e com a arquitetura de Niemeyer, compondo um conjunto de rara beleza. Um artista de reconhecimento tardio Apesar de sua presença constante em espaços públicos de grande visibilidade, Alfredo Ceschiatti nunca alcançou o mesmo nível de reconhecimento popular que outros nomes ligados à construção de Brasília. Parte disso se deve ao próprio caráter de sua obra, integrada à arquitetura e muitas vezes percebida como parte do conjunto, e não como criação autônoma. Além disso, a narrativa histórica privilegiou figuras como Niemeyer e Lúcio Costa, relegando artistas plásticos a um segundo plano. No entanto, especialistas em arte brasileira reconhecem que sem Ceschiatti, Brasília seria esteticamente incompleta. Legado e permanência Alfredo Ceschiatti morreu em 1989, mas sua obra permanece viva no cotidiano da capital. Milhares de pessoas passam diariamente por suas esculturas, muitas vezes sem conhecer o autor. Ainda assim, sua assinatura está ali — nas curvas suaves, na elegância das formas, na integração perfeita entre arte e espaço. Resgatar o nome de Ceschiatti é, também, revisitar o projeto original de Brasília: uma cidade pensada não apenas como centro político, mas como expressão de um ideal estético e civilizatório. Nesse sentido, o escultor mineiro não foi apenas um colaborador — foi um dos arquitetos invisíveis da alma da capital.
