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Luto: Neio Lúcio, o sonhador que humanizou Brasília

9 de abril de 2026
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Com Júlia Costa e Luísa Mello*

Morreu, na noite de terça-feira (7/4), o ator, diretor de teatro e produtor cultural Neio Lúcio, aos 73 anos. Idealizador, produtor e apresentador de todas as edições do Concerto Cabeças, projeto que impulsionou nomes como Oswaldo Montenegro, Cássia Eller e Hugo Rodas, ele sofria de problemas do coração há anos e vivia com restrições de saúde e locomoção. O velório será nesta quinta-feira (9/4), das 13h30 às 16h30, no Espaço Cultural Renato Russo, 508 Sul, e o sepultamento ocorre no Campo da Esperança da Asa Sul, às 17h30.
Segundo o amigo e artista Renato Matos, Neio tinha apenas 20% do coração funcionando. “Ele estava totalmente lúcido, mas estava sofrendo e chegou a passar para a cadeira de rodas. Teve uma crise e faleceu”, contou. “Estou muito triste, porque é uma grande perda. Sequer consegui dormir com a notícia. Ele era um irmão querido. E criou o Concerto Cabeças, um acontecimento que está incrustado na história de Brasília, tendo uma importância tão grande quanto a nossa cidade”, destacou.
O projeto surgiu em plena ditadura militar, em dezembro de 1978, quando Neio transformou uma lojinha nos fundos da Comercial da 311 Sul, a Galeria Cabeças, em centro irradiador do que era a cultura brasiliense na época. Nos gramados da quadra, todo último domingo do mês, montava-se um palco nos fundos do estabelecimento, que funcionava como ponto de encontro entre jovens a fim de aproveitar a música e a literatura.
No início dos anos 1980, os Concertos foram transferidos para um auditório a céu aberto no Parque da Cidade e, até o fim da década, promoveram shows que mobilizaram a juventude para assistir aos espetáculos ao ar livre. Fundamental para a afirmação cultural da capital, o projeto convidou os brasilienses a ocuparem um grande quintal coletivo para difundir a arte, acabando com o estigma de “cidade-fantasma”.

A poeta Noélia Ribeiro foi uma das pessoas que conheceu Neio nos gramados da 311 Sul. “Encantada por suas ideias e seus olhos de mar, passei muitas tardes com ele, Eurico Rocha e Wagner Hermuche, absorvendo sua visão artística e auxiliando-os na impressão de cartazes”, lembrou. “Ao realizar esse inesquecível projeto de reunir pessoas para ouvir e apreciar os artistas da cidade, Neio tornou-se um grande produtor cultural, uma figura inquieta e visionária, que deixa enorme vazio nos corações daqueles que tiveram o privilégio de, pelo menos uma vez, assistir a uma edição do Concerto Cabeças”, afirmou.
Para o deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB), amigo de Neio, o produtor cultural foi pioneiro na ocupação de espaços públicos com música de qualidade. “Hoje temos o Choro no Eixo, Choro no Parque e várias outras atividades. E ele foi o precursor disso tudo, com o Concerto Cabeças, que inspirou toda uma geração”, opinou. “O tenho como um ídolo, ele me proporcionou alguns dos melhores momentos da minha vida.”
Um dos nomes impulsionados pelo projeto, o poeta Nicolas Behr classificou Neio como “o cabeça do Concerto Cabeças”, cujo papel foi fundamental na transformação de Brasília e humanização da “maquete” e da ocupação dos espaços públicos. “Ele deixou seu legado na arte, história, força e vibração. Que siga na luz”, desejou. Em março, o escritor lançou o livro Cabeças não morre!, uma homenagem aos artistas que participaram do movimento e já faleceram.
Integrante do grupo Liga Tripa, Sérgio Duboc descreveu Neio como “uma pessoa positiva, empreendedora e visionária”. “Ele descobriu um jeito de reunir toda uma geração de artistas das mais variadas áreas. Sua atuação no Concerto Cabeças mostrou para a comunidade artística, que tinha uma atuação intensa na década de 1970, que era possível fazer grandes festas para a cidade com os artistas locais, com qualidade e quantidade”, pontuou.

Para além do legado do Concerto Cabeças, Neio deixa três filhos, entre eles a mais velha, Tainá Barreto: “Para nós foi uma grande aventura e uma grande emoção ter Neio Lúcio como pai. Ele foi uma pessoa extremamente lúcida, inteligente e amorosa. É um privilégio muito grande”.
“Meu pai teve essa cidade como a verdadeira mãe dele, porque veio de uma história pessoal muito conturbada e foi trazido para cá muito pequeno. Ele foi um filho de Brasília, a cidade que o acolheu. Eu e meus irmãos nascemos aqui, então ele fez a vida dele toda na capital, produzindo eventos que alegraram a vida das pessoas, e nós, enquanto filhos dele, tivemos o privilégio de tê-lo como pai”, disse Tainá.
Geração Cabeças
No próximo dia 23 de abril, será exibido no Cine Brasília o filme Geração Cabeças, de Moacir Macedo, a partir das 20h. “Buscamos retratar o importante momento histórico em que o movimento surge, de resistência política e cultural, e a peculiaridade de sua arte essencialmente brasiliense, apresentando sua trajetória, sua estética e seu contexto transgressor, mostrando a movimentação artística em Brasília desde o final da década de 1970 e a importância destes elementos como pilares formadores da cultura no Distrito Federal”, explicou o cineasta.
O diretor caracterizou Neio como “um grande guerreiro da cultura que lutou bravamente para abrir os espaços aos artistas da cidade, mesmo sem o devido apoio do Estado”. “Foi um movimento que abriu corações e inspirou jovens artistas, trazendo um pouco mais de alma para Brasília, em um momento em que ainda vivíamos as dificuldades e retrocessos da Ditadura Militar. Ele gostava de celebrar a vida e a alegria de fazer arte para todos. E o Cabeças fez isso”, finalizou Moacir.

*Estagiárias sob a supervisão de Patrick Selvatti
 
Carta de despedida
“Brasília amanhece mais silenciosa.
Com profunda tristeza, nos despedimos de Neio Lúcio de Moraes Barreto — ator, produtor cultural, criador de encontros e um dos grandes arquitetos afetivos da cultura brasiliense.

Neio foi um homem da arte, que ensinou a cidade a se reconhecer como arte.
Idealizador do histórico Concerto Cabeças, movimento que transformou os gramados das superquadras, os parques e os espaços públicos em território de música, poesia, teatro, liberdade e convivência, ele ajudou a construir a alma cultural de Brasília em um dos períodos mais marcantes de sua história.
Com sensibilidade, propiciou que a cidade deixasse de ser apenas concreto para se tornar quintal coletivo. Palco aberto. Casa de artistas. Abrigo de sonhos.
Por suas mãos, sua escuta e sua visão passaram gerações de músicos, atores, poetas, artistas visuais e sonhadores que encontraram no Cabeças não apenas espaço, mas pertencimento.

Como ator, Neio emprestou o corpo à cena. Como produtor, trouxe cena a muitos corpos. Como pai e amigo deixou a marca rara dos que não apenas vivem o próprio tempo, mas ajudam a criar o tempo dos outros.
Hoje, sua partida entristece profundamente familiares, amigos, artistas e toda a comunidade cultural do Distrito Federal. Mas sua presença permanece.
Permanece na memória dos dias em que Brasília virou poesia. Permanece no eco dos aplausos ao ar livre. Permanece em cada artista que aprendeu que a cidade também pode ser palco. Permanece no amor de quem o conheceu de perto. E permanece, sobretudo, na história viva desta capital.
À família, aos amigos e a toda a classe artística, nossa solidariedade, respeito e gratidão.

Obrigado por ter ensinado Brasília a respirar arte. Descanse em paz”.
Luciano Moraes Barreto, filho de Neio Lúcio e Áurea Ervilha

 
Saiba Mais

Isabela Berrogain RepórterApaixonada pelo mundo cultural, jornalista com foco na cobertura de música, televisão, streaming e gastronomia. Graduada pela Universidade de Brasília (UnB).José Carlos Vieira EditorJornalista, poeta e escritor, formado na Universidade de Brasília, trabalha no Correio Braziliense há 34 anos. É editor de Cultura, de Cidades e da Revista do Correio. É letrista e pintor amador

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